Dívidas fazem mal para o bolso e para a saúde
24/03/2023

Dívidas fazem mal para o bolso e para a saúde

Aprenda a identificar quando os problemas financeiros extrapolam o bolso, afetando a saúde física e mental

Em Terra Estrangeira, filme dirigido por Walter Salles (1995), ficou famosa a cena da personagem Manuela, interpretada pela atriz Laura Cardoso, que sofre um colapso após assistir ao pronunciamento da então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, comunicando o confisco das contas bancárias para tentar conter os altos índices de inflação.

Da ficção para a vida real, a pesquisa Perfil e Comportamento do Endividamento Brasileiro 2022, feita pelo Serasa em parceria com o Opinion Box e com a colaboração da psicóloga do dinheiro, Valéria Meirelles, buscou mensurar os impactos emocionais gerados pelo endividamento.

O estudo revelou que 83% dos entrevistados têm insônia causada pela preocupação com as dívidas, 74% enfrentam dificuldades de concentração nas tarefas diárias e outros 83% sentem que as dívidas impactam sua vida social. Neste último aspecto, 62% relataram implicações negativas das dívidas na vida do casal e outros 36% se afastaram de amigos.

“Os aspectos biológicos são os primeiros sintomas de preocupações com as dívidas, especialmente quando elas podem levar à inadimplência”, explica Valéria no relatório da pesquisa. De acordo com ela, quando uma pessoa está tomada pela preocupação com as dívidas, se priva de alguns confortos. “Consequentemente, ela pode ter dois tipos extremos de comportamento: se afastar e se isolar ou conviver, mas com irritabilidade, o que pode levar a discussões e, em casos mais graves, à violência doméstica.” 

Os resultados de 2022 do Índice de Saúde Financeira do Brasileiro, criado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) em parceria com o Banco Central, trazem um recorte de como anda a saúde financeira da população: 34,2% gastam mais do que ganham, apenas 19,8% conseguiriam dar conta de uma despesa inesperada de maior valor e 39,4% se sentem inseguros em relação ao seu futuro financeiro.

Como lidar com esse cenário de incertezas? Conheça algumas histórias reais e confira as dicas da psicóloga e especialista em educação e comportamento financeiro Paula Almeida Ramos para reduzir os impactos do endividamento na saúde física e psíquica.

“Não me programei para enfrentar um período de escassez”

Empreendedora da área de estética e autocuidado, Patrícia Duarte sente na pele os efeitos da falta de dinheiro. “Tenho vermelhidão no rosto e colo, fico extremamente irritada, com dor de cabeça e minha pressão, consequentemente, fica altíssima. Já fui parar no pronto socorro inúmeras vezes por conta disso.”

No ramo há 15 anos, ela convive com a sazonalidade do setor, mas admite que falta educação financeira para saber se planejar melhor e fazer uma reserva financeira para períodos de baixa demanda. “Se eu não tenho clientes, também não tenho dinheiro. Não me programei para enfrentar a escassez no final do ano passado e no começo deste ano, e ainda fiz dívidas não planejadas no cartão de crédito, o que complicou ainda mais minha situação.”

Com o quadro de ansiedade agravado pelos problemas financeiros, Patrícia resolveu procurar ajuda psicológica. “A terapia tem me mostrado que, muitas vezes, eu invisto demais e sem necessidade em equipamentos e materiais. Aí, no momento em que fico sem dinheiro começo a questionar as escolhas que fiz sem planejar.” 

A partir desse aprendizado, a empreendedora quer usar o cartão de crédito de maneira mais consciente, reservando-o para momentos específicos e controlando melhor os gastos. “Coloquei as dívidas no papel e estou organizando meu orçamento para quitar tudo o mais breve possível.”

Assim como Patrícia, a maioria dos brasileiros se mostra esperançosa quando o assunto é acabar com as dívidas. A pesquisa do Serasa apontou que, de 2021 para 2022, cresceu em 11% a esperança dos endividados de ter o nome limpo na praça em breve.

“Fiquei desesperada e isso afetou diretamente minha saúde”

No final de 2021, Mirella Marins perdeu o emprego. “Tinha acabado de mudar para um novo apartamento, fiz empréstimo para comprar móveis e eletrodomésticos novos e a demissão me pegou de surpresa”, conta. Com experiência na área da educação, ela engrossou as estatísticas de um segmento bastante afetado durante a pandemia. Segundo levantamento feito pela TV Globo, a partir de dados do Censo Escolar 2021, foram perdidas 26.435 matrículas em escolas privadas no ano.

Com toda a reserva financeira usada para quitar as dívidas e sobreviver ao período sem trabalho, pagando aluguel e despesas fixas da casa, Mirella relembra que entrou em depressão. “Não conseguia sair daquela tristeza profunda que eu estava mas, ao mesmo tempo, não desisti de buscar recolocação: acordava cedo e procurava emprego o dia todo.” 

Mesmo participando de processos seletivos, ela conta que não conseguia uma recolocação. “Entrei em desespero e isso afetou diretamente a minha saúde. Desenvolvi a síndrome do impostor: comecei a duvidar da minha capacidade, a achar que não servia para as vagas e passei a me julgar, a me criticar demais.”

Mirella decidiu, então, usar o tempo livre para fazer cursos de atualização gratuitos e, em alguns casos, pagava outros para incrementar e ampliar sua formação. “Depois de seis meses eu consegui emprego na área de marketing de conteúdo e passei a colocar minha vida financeira em dia novamente.” 

Expandindo seu leque de atuação, passou a atuar como head de comunicação e marketing e fez cursos em SEO, copywriting e UX Writer. “Saí daquela fase de depressão cheia de dívidas e me especializei para voltar ao mercado mais forte e com expertise em um nicho que oferece muitas oportunidades e salários bastante atrativos. Também estou refazendo, aos poucos, minhas reservas para não passar mais aperto financeiro.”

“A saúde financeira interfere em todas as áreas da vida”

Paula Almeida Ramos, psicóloga e especialista em educação e comportamento financeiro, explica que a saúde do ser humano é resultado do equilíbrio de todos aspectos que envolvem a vida – biológicos, sociais, físicos e espirituais -, e que quando há alteração em algum deles, o bem-estar da pessoa pode ser, consequentemente, alterado.

“A saúde financeira tem um papel importante, interfere em praticamente todas as áreas da vida e está relacionada com nosso senso de sobrevivência. Alterações na saúde mental podem trazer comportamentos compulsivos e consumo excessivo, assim como problemas financeiros podem desencadear uma reação em cadeia que afeta diretamente a saúde física e mental”, explica.

Segundo ela, os problemas financeiros são extremamente desafiadores porque podem colocar em xeque todas as áreas da vida: mexem com o senso de sobrevivência, afetam os relacionamentos, constroem emoções de medo, desamparo, ansiedade e frustração.

“As emoções são oportunidades para sentir, reconhecer, aceitar e mudar, mas quando não conseguimos acolhê-las e buscar recursos para lidar com elas ou estratégias para o problema, ficamos presos à resposta de luta e fuga, e à sensação de ameaça à sobrevivência. É nesse momento que precisamos de ajuda.”

A psicóloga explica que a preocupação excessiva e os pensamentos ruins recorrentes deste contexto aumentam a produção de cortisol (hormônio do estresse) e de adrenalina, gerando uma cascata de reações, como maior produção de glicose, inibição do funcionamento gastrointestinal, aumento do ritmo da respiração, aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão, maior tensão na musculatura. “Estamos prontos para lutar ou fugir”, explica.

De acordo com a especialista, toda essa resposta é natural e importante, pois trata-se de uma tentativa do organismo de se proteger. Mas, segundo ela, a ativação imprópria e crônica do estresse traz desequilíbrio e desgaste para o organismo e tem sido relacionada aos transtornos de ansiedade, muitas vezes associados a quadros depressivos.

“Além disso, de forma prolongada, podemos ter aumento de peso (produção constante de glicose, também associada a resistência à insulina), queda da resposta do sistema imunológico, aumento de pressão, alterações gastrointestinais, insônia, dentre outros desequilíbrios associados ao constante estado de alerta.”

Algumas dicas para controlar o estresse e manter a saúde mental

Paula afirma que o primeiro passo é reconhecer a situação. Quando há uma questão financeira real disparando todas essas sensações, ela precisa ser direcionada. A ideia é não arrastar e, sim, buscar soluções ou pedir ajuda para traçar um plano de ação e resolver. 

“A preocupação constante e prolongada em relação aos problemas financeiros e seus efeitos sobre o corpo e a mente fazem a pessoa entrar num ciclo destrutivo. Manejar o estresse é importante para ter clareza e foco e desenvolver estratégias de enfrentamento.”

Quando estamos constantemente “em modo de sobrevivência”, segundo a psicóloga, nosso sistema não está em estado adequado para tomar decisões ou encontrar soluções. Fica ainda mais difícil encontrar saídas, já que o raciocínio está comprometido, há reações mais impulsivas, aumento da irritabilidade, fadiga, desânimo e presença de pensamentos recorrentes que contribuem para o imobilismo.

“Assim como temos um sistema de ação, temos outro que nos coloca em estado de relaxamento, chamado parassimpático. Buscar o equilíbrio da ação desses dois sistemas é fundamental para a manutenção da vida. Precisamos lembrar que mente e corpo estão intrinsecamente conectados.”

Para isso, diz Paula, podemos fazer coisas simples e que não têm impacto no orçamento, como aproveitar momentos de lazer e descanso, frequentar parques, fazer passeios alternativos, aumentar o diálogo em família e manter contato com amigos.

Fazer uma boa higiene do sono, buscar uma alimentação saudável e praticar atividades físicas também ajudam a manter o organismo em equilíbrio. “Por meio do corpo, do controle da respiração, é possível ajudar os sistemas a se reequilibrarem, diminuindo a produção excessiva de cortisol decorrente do estresse prolongado,” situa.

Paula destaca que desenvolver um planejamento financeiro é fundamental. “Ao nos apropriarmos do nosso patrimônio, controlando tudo e  tendo clareza do que é importante para nós – a casa, o futuro dos dependentes, a saúde -, temos a sensação de segurança que auxilia nosso equilíbrio.”

Isso é importante porque ajuda a fazer escolhas mais conscientes, direcionando os recursos para o que é prioritário. “Ao fazer uma projeção dos meus ganhos e dividi-los em categorias, ao longo do ano, tenho um cenário e posso  me antecipar nas decisões sobre o que está por vir.”

A psicóloga salienta que não precisamos ficar dependentes de uma única fonte de renda para melhorar nossa qualidade de vida financeira. “Podemos encontrar soluções criativas em família para aumentar a renda, definir as prioridades e cortar gastos invisíveis, mobilizando todos para um sonho comum. Com isso também construímos uma vida de mais qualidade, diminuímos o estresse, melhoramos os relacionamentos e, consequentemente, nossa saúde física e mental.”

Aproveite o mutirão de negociação

Os mutirões de negociação são uma excelente oportunidade para colocar as dívidas em dia. O primeiro mutirão de 2023, promovido pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e bancos associados, em parceria com o Banco Central do Brasil, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Procons de todo o país, acontece entre os dias 1º e 31 de março. Você pode negociar qualquer dívida em atraso com bancos ou financeiras, exceto aquelas que tenham bens em garantia, como veículos, motocicletas e imóveis.

Fonte: Meu Bolso em Dia – Febraban

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